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Escritos
As ONGs e o Planejamento Estratégico
O processo de planejamento institucional estratégico que muitas ONG
iniciaram na década de 1990 deve ser observado dentro de um quadro
amplo de transformações a que elas vêm atravessando nos últimos dez
anos e sobre o qual pouco se tem refletido. O universo das organizações
sociais e especialmente as chamadas organizações não governamentais
foram adquirindo nos últimos anos uma configuração complexa e pouco
homogênea, com a entrada em cena de atores novos vindos de outros
horizontes políticos e espaços econômicos.
Na
esfera da sociedade civil em processo de fortalecimento institucional,
foram sendo reunidos tradições de atuação social, perfis e vocações
diferentes sem que houvesse um debate mais profundo entre as ONGs
históricas, as agências tradicionais de cooperação internacional, os
movimentos sociais e outros parceiros sobre suas implicações para a
identidade, os padrões de relações institucionais e as condições de
sustentabilidade dessas organizações.
Esse novo panorama que se
vai consolidando, traz grandes modificações na tipologia de ONGs que
havia surgido na década de oitenta e no padrão de relações autônomas -
e muitas vezes antagônicas – entre Estado-Sociedade e
Empresas-Sociedade que orientou posicionamentos estratégicos e escolhas
institucionais, e porque não dizer, de financiamentos. Porém nos
últimos anos, na chamada sociedade civil organizada vão se
desenvolvendo leituras da realidade, aportes metodológicos e formas de
engajamento com reflexos sobre modelos de gestão e formas de
financiamento institucional e programático cada vez mais heterogêneos e
diferenciados.
Fatores de Mudança
Essa
diversificação do universo das ONGs, das linhas e prioridades de ação
que elas vão assumindo e dos formatos das novas parcerias
institucionais surgida com força na segunda metade da década passada
vai moldando em profundidade as relações e posições atuais. A este
panorama há que se acrescentar três outros elementos que também
contribuíram para as mudanças.
O primeiro relaciona-se à
expansão acelerada das ONGs ocorrida desde o final dos anos oitenta
pela multiplicação de novas instituições, pelo aumento de programas e
projetos das ONGs de primeira geração ou mesmo pela profissionalização
assalariada crescente de seus quadros técnicos. Vale recordar que nesse
período iniciam-se as movimentações pró-reforma do Estado, as primeiras
privatizações de empresas estatais, os programas de demissão de pessoal
na esfera pública, a terceirização de serviços públicos etc.
O
segundo decorre de mudanças no padrão de financiamento das ONGs
dependentes da cooperação internacional. As alterações da política
macroeconômica do país ocorridas entre 1993-95 que levaram à
estabilização macroeconômica e ao fortalecimento artificial da moeda
nacional, imputaram às ONGs o fim dos benefícios de arbitragem cambial
advindos dos financiamentos externos e da administração dos ganhos
propiciados pela inflação.
Junte-se também a esse fator mais
conjuntural, a repercussão no médio prazo da relativa retração dos
recursos da cooperação internacional européia e de sua crescente
dependência à captação e administração de recursos governamentais ou
comunitários. Apesar de seus compromissos históricos com a América
Latina, ela vem sendo crescentemente sensibilizada pelas demandas
emergentes dos países do antigo bloco soviético na Europa e na Ásia, às
portas da União Européia e pelo empobrecimento endêmico da África
Sub-saariana. Assim, as perspectivas por esse caminho para as
organizações da América Latina tornaram-se mais limitadas.
Por
último, não pode ser menosprezada a importância da entrada e da
afirmação crescente do conceito de Terceiro Setor, de tradição
corporativa norte-americana, na cultura da sociedade brasileira seja na
esfera governamental, empresarial ou associativa como uma decorrência e
na continuidade do processo de internacionalização porque passaram as
ONGs na década passada. A grande visibilidade da expressão Terceiro
Setor alcançada na mídia, amalgamando ao percurso anterior que as ONGs
haviam feito, as organizações sociais em geral, as iniciativas sociais
das empresas e inclusive em alguns casos, as parcerias governamentais
também não devem ser ignoradas.
Aliás, esse processo não pode
ser isolado de um movimento muito mais amplo de internacionalização
globalizante da economia, das relações políticas e da cultura de massas
que vem sendo conduzido pelos EUA e as grandes corporações
transnacionais como parte decorrente da homogeneização de conceitos e
padrões supostamente universais e universalizantes. Não se pode ignorar
que as ONGs tornaram-se também um campo estratégico onde essa batalha
está sendo travada. Dar-lhe novos conteúdos ou esvaziá-las de
significado político é parte da chamada batalha imperial da nova década.
Dessa
forma, a noção difusa de Terceiro Setor - muito mais ampla que o campo
de ação social das ONGs anteriormente demarcado - associada à imagem da
filantropia empresarial e da gestão eficiente dos recursos geradores de
resultados e impactos sociais, vem acelerando a introdução de
instrumentos de gestão, como planejamento e indicadores de monitoria
por exemplo, que encontram uma certa dificuldade de internalização por
essas organizações .
Assim, a ampliação ilimitada do chamado
Terceiro Setor, a descaracterização do conceito original de
organizações não governamentais, as mudanças no padrão de financiamento
dessas organizações e o uso crescente de instrumentos de gestão
estranhos a sua tradição metodológica têm provocado processos internos
de reestruturação complexos e de difícil condução no curto prazo.
Há
que se atentar para o fato que um processo apressado de implantação do
ciclo de planejamento com pouca adesão dos participantes poderia
reforçar um sentimento de perda de identidade institucional ou levar a
uma burocratização excessiva dos encaminhamentos organizacionais, do
planejamento ou do próprio modelo de gestão aplicado pelas ONGs.
Entretanto,
o caminho não é único e existem escolhas políticas e metodológicas a
serem feitas. Nenhum modelo, nenhuma ferramenta é neutra nem tampouco
tem vida própria e razão de ser em si mesma. Cabe a cada ONG fazer a
escolha e principalmente dar-lhe conteúdo - que segundo situações
diferentes pode ser simbólico, pedagógico e até estratégico – e
localização no tempo institucional.
Planejamento, uma Escolha Política
O
ato de planejar, de construir um cenário ou uma proposta de futuro,
passa pelo domínio da técnica e pela aplicação prática, mas passa
principalmente pela definição do porquê, do como, do para quem. O
planejamento dessa forma pode tornar-se um instrumento de transparência
– para dentro e para fora - do quê fazer das ONGs, valorizando o papel
do diagnóstico, revisando ou consolidando a missão institucional,
definindo objetivos, metas e estratégia.
Contudo, uma ONG não
tem função em si mesma, mas justifica-se pelo benefício social gerado,
pela construção cultural, pela dimensão política do compromisso
empenhado e, portanto o planejamento deveria chegar ao “beneficiário”
não como público-alvo, mas como parceiro-chave, um ator social
estratégico. Um bom planejamento não pode furtar-se à presença ou
perder a dimensão desse parceiro-chave. Ele poderá ser lido e entendido
mesmo por quem não participa diretamente de todo o processo, do
diagnóstico ou das projeções feitas. Para as ONGs que não trabalham
“diretamente” com o público beneficiário, identificar o parceiro-chave
e buscar as mediações institucionais para torná-lo presente torna-se
mais um requisito do processo de planejamento.
Entretanto,
qualquer que seja o cenário de execução, o planejamento não se faz
isolando as partes e justapondo-as em seguida. Entrar no jogo do
planejamento obriga as partes a abrir o jogo e deixar de ser parte para
estar no todo. O planejar em ONGs pode vir a ser uma oportunidade de
quebrar os núcleos de poder internos que ao longo dos anos foram se
estratificando e que mantidos por muito tempo podem levar à paralisia
organizacional ou à perda do foco institucional. Não raro, encontram-se
ONGs envelhecidas prematuramente ou totalmente dependentes de seus
fundadores e que encontram muita dificuldade para enfrentar um
re-posicionamento estratégico em um novo contexto.
O sistema
de planejamento que é integrado por seus três momentos fundamentais, do
diagnóstico e projeção, do acompanhamento e da avaliação, deve ser um
processo de educação contínua e coletiva para toda a instituição.
Observar realidades e atores, intercambiar e debater experiências e
opiniões, projetar, implementar, valorar, reavaliar. Para as
organizações é mais fácil ver o que está fora dela que entender o que
está dentro. Porém o sistema de planejamento não pode estar dirigido só
para as atividades externas. Por isso, cada passagem deve ser mais que
uma atividade e ser também uma ação educativa intra-organizacional.
O
planejamento precisa ser politizado enquanto instrumento de elaboração
de estratégias para alcançar o futuro que são os objetivos visados em
um re-posicionamento estratégico. Mas a técnica não pode ser um fim em
si mesma. Ela deve representar escolhas, ampliar a participação dos
atores e a dimensão política de processos decisórios. Tratar o
planejamento ou a formulação de estratégia apenas como ferramenta de
gestão organizacional ou programática é perder sua essência, tornando-o
esvaziado de sentido, sem direção, sem capacidade de mobilização
interna. Para a cultura das ONGs, esse planejamento torna-se
dispensável ou facilmente substituível por outro modelo ou modismo
disponível no mercado.
A caminhada – como se dizia nos tempos
cinzentos – das ONGs representa uma seqüência de planos que deram
origem e depois consolidaram formas de ser organização na sociedade,
cultivando valores e critérios. Ao longo da caminhada os planos foram
mudando, algumas prioridades surgiram, outras foram sendo abandonadas,
novos instrumentos de gestão foram sendo adotados e metabolizados,
muitas vezes descartados. Por isso, no campo da gestão e da
sustentabilidade de projetos, uma questão importante que se apresenta
hoje a muitas ONGs é menos de planejamento que de política
institucional e escolhas de futuro que ela possa exigir. Por isso o
planejamento deve ser experimentado para ser desmistificado, politizado
para se tornar efetivo.
Eduardo Baptista, abril de 2003.
ebaptista@innovatio.com.br
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