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Escritos
Organizações Sociais e Caminhos do Financiamento
O
padrão de financiamento das ações sociais está passando por mudanças
muito significativas. As organizações de Cooperação Internacional não
governamentais, tradicionais apoiadoras das atividades de organizações
da sociedade civil brasileira desde os anos 1970, já não representam o
principal caminho de acesso a recursos financeiros. Muitos outros
agentes como organismos multilaterais, órgãos governamentais e
empresas, diretamente ou através de suas fundações, estão ampliando sua
presença nesse campo e redesenhando as relações estabelecidas
anteriormente. Da mesma forma, financiamentos institucionais ou a
programas temáticos vão dando lugar a apoio a projetos específicos de
curta duração e a outras modalidades como concursos, premiações e
consórcios. O universo dos financiamentos, restrito até o início da
década de 1990 às relações com a Cooperação Internacional e a projetos
institucionais de média duração, vai se tornando multifacetado. Os
direitos humanos, que foi tema central dos anos 1980, vão cedendo
espaço ao debate sobre a pobreza, a exclusão social e os meios para
superá-la.
Direitos, Desenvolvimento e Pobreza
A
redemocratização da América Latina e o fim da Guerra Fria colaboraram
para uma relativa desmobilização da temática ligada aos direitos
humanos - em sua formulação mais geral – e levaram muitas organizações
sociais ligadas à sua defesa a buscar caminhos mais específicos em suas
ações. Por outro lado, o aumento durante os anos 1990 da concentração
da renda e o crescimento do número de pobres em todo o mundo, trouxeram
para o debate público um novo tema, de grande impacto e aparente
consenso. Um marco nesse debate, a Conferência Mundial sobre
Desenvolvimento Social (Copenhague, 1995) estabeleceu como seu
principal objetivo a erradicação da pobreza no mundo mediante ações
locais e regionais, amplas e focalizadas. Para alcançar esse objetivo
seria decisivo contar com o apoio da chamada Cooperação Internacional
em suas diferentes modalidades de atuação. Para mostrar sua adesão,
entre as metas de desenvolvimento internacional, os representantes dos
países doadores incluíram a redução da pobreza pela metade entre 1990 e
2015.
Na continuidade da Conferência, várias iniciativas foram
propostas por governos e organizações sociais e lançadas com grande
repercussão. Citaremos apenas algumas para ilustrar. Em 1998, a
Associação Internacional de Desenvolvimento (AID) que reúne grandes
doadores governamentais, em sua reunião anual reafirmou o compromisso
de apoiar programas para reduzir a pobreza e melhorar a qualidade de
vida nos países mais pobres. O Movimento Internacional Jubileu 2000
ajudou a colocar a redução da dívida externa no debate mundial sobre as
estratégias de cooperação para redução da pobreza. A Oxfam
Internacional vem desenvolvendo campanhas pela eliminação da pobreza
através de um comércio justo. Em outro plano, em uma iniciativa
correlata, o Comitê de Assistência para o Desenvolvimento (DAC) da
Organização de Cooperação para o Desenvolvimento Econômico (OCDE) vem
tentando aprofundar o debate técnico visando diminuir as diferenças de
concepção entre os doadores com relação às estratégias adotadas para a
redução da pobreza. Embora ainda não exista um consenso quanto às
diretrizes que devem orientar as organizações doadoras quanto a tornar
seus programas mais eficazes, é notório como essa e outras iniciativas
similares vão mudando o ambiente e o tipo de compromissos existentes na
Cooperação Internacional, nas ações desenvolvidas pelas organizações
receptoras e nos próprios resultados esperados.
Por outro lado,
apesar das grandes conferências sociais mundiais terem se multiplicado
e o discurso da comunidade internacional voltado para a luta contra a
pobreza ter se fortalecido, a assistência governamental ao
desenvolvimento vem diminuindo, segundo dados do Banco Mundial
(Relatório sobre Desenvolvimento Mundial: Reformar a Cooperação
Internacional, 2002). Isso tem acontecido apesar da visão otimista
predominante no início da década passada, que com o fim da Guerra Fria,
supunha que a cooperação para o desenvolvimento aumentaria devido aos
cortes nos gastos militares. Na verdade, após registrar seu nível mais
alto em 1992, a transferência de recursos públicos dos países ricos aos
países em desenvolvimento diminuiu regularmente durante a década. Entre
os 21 países mais ricos da OCDE, apenas 5 países aplicaram na chamada
assistência oficial ao desenvolvimento uma parcela maior de seu PIB em
1997–98 que em 1988–92. Proporcionalmente, a distribuição regional
dessa ajuda permaneceu mais ou menos constante entre 1987 e 1998,
exceto um aumento na parcela da Europa (Oriental) e Ásia Central.
Por
outro lado, se compararmos com outros fluxos financeiros em geral, o
resultado é ainda pior. Embora tenha havido fluxos maciços de capital
privado para os países em desenvolvimento, um volume muito pequeno se
destinou aos países mais pobres ou a iniciativas econômicas que
beneficiassem os mais pobres. Os fluxos de capital privado se
concentraram em alguns poucos países e em setores de atividades de
rápido retorno sem efeito distributivo, sendo que a maioria dos países
recebeu pouco ou nada. Em 1997, antes da crise financeira mundial que
se iniciou na Ásia, 15 países em desenvolvimento – Brasil incluído -
receberam 83% dos fluxos de capital privado, enquanto que os outros 17%
foram divididos entre cerca de 140 países e territórios em
desenvolvimento. Os 61 países de baixa renda praticamente ficaram de
fora. A África Sub-Saariana recebeu apenas 1,2% dos fluxos em 1998.
O
declínio da ajuda governamental dos países ricos seria devido a vários
fatores. Os doadores citam o desemprego interno, o déficit fiscal e a
instabilidade econômica dos mercados como parte principal do problema.
No entanto, como historicamente a assistência foi determinada mais por
interesses políticos e estratégicos do que por metas de redução da
pobreza, provavelmente os doadores consideram outras aplicações mais
importantes. Assim, como a preeminência dos interesses geopolíticos não
é de hoje, a novidade mais recente talvez seja o declínio no apoio dos
defensores da cooperação ao desenvolvimento por motivação humanitária
ou de direitos humanos e a busca de novos critérios de valor para
orientar suas escolhas.
Vale recordar também que a maioria das
agências de cooperação não governamentais e de fundações privadas que
ao início dependiam fundamentalmente de recursos patrimoniais, doações
pessoais, campanhas públicas e contribuições associativas por motivação
política, sindical ou religiosa, hoje são dependentes cada vez mais, da
captação de recursos junto a instituições governamentais e
multilaterais.
Muitos doadores argumentam que se cansaram de
prestar assistência e passaram a defendê-la com menos entusiasmo nos
últimos anos. Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos em 1999
constatou que mais de 50% da população era favorável ao financiamento
de iniciativas sociais em outros países, enquanto 35% achavam que ele
devia diminuir. Porém, mais de 80% acreditavam que, devido ao
desperdício e à corrupção, os recursos de cooperação internacional não
chegavam às populações que dela necessitavam perdendo-se no meio do
caminho. Percepções como essa também vêm se identificando na Europa e
podem dificultar a manutenção ou o aumento dos recursos da Cooperação
nos próximos anos.
No entanto, em contraste com essa
tendência, existem sinais em sentido contrário como uma crescente
articulação de redes de organizações sociais ou a significativa
presença de delegações de movimentos e associações de países doadores
nos Foros Sociais Mundiais e as iniciativas deles decorrentes. Também
cabe ser recordadas as mobilizações globais, com aumento significativo
de apoio e militância, em torno do debate sobre comércio justo,
direitos humanos, pobreza e redução da dívida, em esferas
multilaterais, em movimentos globais. Certamente continua havendo
espaços de solidariedade internacional ou, ao menos, apoio social ao
princípio de proporcionar recursos e instrumentos para fortalecer a
defesa dos direitos ou melhorar a vida dos pobres no mundo em
desenvolvimento. A existência de um questionamento sobre os mecanismos
tradicionais de fornecimento e uso desses recursos não anula sua
relevância.
Em um plano avaliativo mais amplo, entre
instituições e países doadores pareceria estar surgindo algumas linhas
de análise mais críticas e consistentes. O apoio a políticas e
instituições adequadas é importante, mas não suficiente. O processo e
seu acompanhamento são tão importantes quanto à formulação de
macro-políticas. A interação entre doadores e beneficiários pode
influenciar o grau de eficácia da cooperação para o desenvolvimento. As
relações são assimétricas e tendem a seguir as preferências dos
doadores, deixando muitas vezes, os beneficiários pouco identificados
com as atividades financiadas. O fato que as relações de cooperação
muitas vezes não levaram em conta a realidade local, as características
culturais, as estruturas institucionais e a própria assimetria da
relação, reduziu a identificação entre doação e beneficiário, assim
como interferiu diretamente nos processos e resultados.
No
relatório do Banco Mundial acima citado, a relação entre organismos de
Cooperação Internacional e organizações não governamentais (ONGs) é
citada como exemplo promissor de parceria no enfrentamento de questões
ligadas à pobreza, ao desenvolvimento, aos direitos humanos. Segundo o
relatório, os organismos de cooperação devem continuar aprendendo a
trabalhar eficazmente com as ONGs pois apesar das relações entre eles
serem complexas, há muita margem para melhoria. Dados abrangentes sobre
a extensão e eficácia das relações entre doadores e ONGs são escassos,
mas estima-se que cerca de US$ 5 bilhões em recursos governamentais e
multilaterais são canalizados através delas a cada ano, seja em
subsídios a suas atividades ou em contratos para implementar atividades
dos doadores. Na avaliação do relatório, as ONGs parecem ser um canal
eficaz de cooperação quando participam desde o início do projeto, na
etapa de elaboração, quando são escolhidas por sua capacidade e
experiência e quando são tratadas como parceiros em vez de empreiteiros
sociais. No entanto, pouco se sabe sobre o impacto no longo prazo dos
projetos de ONGs, talvez porque segundo o relatório, pouco se aplicou
na avaliação e monitoramento das atividades por elas realizadas.
Cooperação entre Não Governamentais
No
entanto, se outras fontes de financiamento vêm aumento sua presença,
historicamente as agências não governamentais como Fundação Ford,
Novib, Misereor, Oxfam, Développement et Paix, entre muitas outras,
tiveram um papel fundamental e diferenciado, pelo apoio institucional,
na construção e consolidação das chamadas ONGs de primeira geração –
como veremos mais adiante – e na constituição de um grupo de
organizações que pela convergência de linhas de ação estratégica e
identidade política constituíram a base de organização inicial da
sociedade civil em plano nacional no final dos anos 1980.
No
Brasil, o debate sobre as modalidades de financiamento ao
desenvolvimento ou a origem dos recursos é ainda incipiente, quase não
existem estudos sobre a qualidade e o volume dos recursos da Cooperação
Internacional que as ONGs recebem. Um desses estudos que se tornou
referência, coordenado por Bailey e Landim em 1995, abarcando um
universo de 41 agências não-governamentais de cooperação internacional
atuantes no Brasil, registrou que o total de recursos recebidos foi de
aproximadamente U$ 75 milhões em 1994. Do universo consultado, foram
computados dados informados por 33 agências. No detalhamento dos
resultados, pode-se observar que cerca de 70% dessas agências
trabalhavam com orçamentos anuais inferiores a U$ 1 milhão para
projetos no país, enquanto apenas cerca de 20% delas dedicavam somas
superiores a U$ 4 milhões. Quanto ao valor dos projetos financiados,
60% das agências mencionaram um valor médio abaixo dos U$ 30 mil, sendo
que apenas 10% declararam conceder financiamentos médios superiores a
U$ 100 mil.
A pesquisa também focalizou as prioridades
temáticas das agências. Quando perguntadas sobre os temas prioritários
que apoiavam, o resultado apontou o predomínio do desenvolvimento
sustentável rural, seguido de gênero e/ou saúde reprodutiva. Foram
ainda destacados: meio ambiente, democracia, cidadania, políticas
públicas e educação. Outros temas que apareceram pontualmente foram:
reforma agrária e urbana, sindicalismo, aids e violência. Porém, o
estudo ressaltou que as agências freqüentemente relacionaram vários
temas como prioritários, indicando, opções não-exclusivas.
Com
relação às atividades mais realizadas nos projetos, a pesquisa
apresentou uma opção generalizada das agências pelas iniciativas mais
tradicionais de formação, capacitação e assessoria, seguidas pelas
atividades vinculadas à formulação de políticas públicas, exercício de
pressão política, desenvolvimento de pesquisas e realização de
campanhas. Também foram mencionadas pontualmente iniciativas como
fortalecimento organizacional, atividades produtivas, articulações
interinstitucionais e construção de redes. Quanto à presença e
distribuição geográfica no país, a pesquisa mostrou uma concentração de
apoios no Nordeste, seguida pelo Norte, sobretudo a Amazônia, e pelo
Sudeste, A região menos citada pelos financiadores foi a Centro-Oeste,
apesar de em sua maioria, terem afirmado apoiar todas as regiões.
Quanto
aos beneficiários ou à população-alvo das agências de cooperação,
constatou-se uma grande diversidade de públicos a ser atingida pelos
projetos. Há uma predominância de projetos voltados para trabalhadores
rurais e pobres e/ou marginalizados urbanos. Cerca de 68% das agências
incluiu mulheres e 49% incluiu negros como parte da população-alvo, no
entanto, apenas 13% das agências incluíram as mulheres como grupo
prioritário entre a população-alvo. Negros e indígenas não foram
incluídos entre as primeiras opções por nenhuma das 33 agências
respondentes. Contudo, há que se atentar para a data de realização da
pesquisa. Na atualidade, provavelmente os resultados apontariam números
diferentes para temas como etnia ou discriminação racial.
Por
isso, questões como mudança no padrão de financiamento, estratégias de
posicionamento e prioridades temáticas ou por grupos sociais não podem
ser analisadas em maior profundidade fora de um quadro amplo de
evolução do universo das organizações sociais e suas relações com os
agentes financiadores.
Mudança de Contexto e Trajetória das ONGs
A
primeira geração das chamadas organizações não governamentais (ONG)
surgiu em um território claramente delimitado pela contestação à ordem
dominante e pela autonomia frente a governos, empresas, instituições
filantrópicas e mercados no final dos anos 1970, início dos anos 1980.
O espaço da contestação lhes era assegurado pela identificação política
com os movimentos populares, as comunidades de base da periferia urbana
ou do meio rural e os sindicatos. A identidade se confundia com o apoio
prestado através de assessorias, capacitação e instrumentação teórica a
esses movimentos e comunidades. Esses serviços prestados, ainda que não
fossem vistos como tais, eram vividos como compromissos da militância e
parte do enfrentamento ideológico ao governo militar por setores mais
amplos da sociedade brasileira, comprometidos com o restabelecimento do
regime democrático.
A autonomia lhes era possível, graças aos
recursos financeiros e em muitos casos ao apoio institucional da
chamada Cooperação Internacional que era constituída majoritariamente
por organizações de origem européia, não governamental. A elas se
juntavam duas ou três fundações privadas norte-americanas. Quase todas
essas organizações movimentavam recursos financeiros advindos de
doações privadas e de campanhas de sensibilização política e captação
de recursos em seus países de origem. Era um momento que a Cooperação,
por vínculos afetivos e de solidariedade militante, estava empenhada em
compartilhar e participar da redemocratização do continente
latino-americano e da defesa dos direitos humanos, com grande apoio da
opinião pública internacional, de alguns governos europeus e de algumas
Agências das Nações Unidas. Era uma época que a Cooperação quase tinha
rosto, era personalizada, muitos de seus dirigentes e responsáveis de
projeto vinham de grupos militantes progressistas europeus e
norte-americanos, a maioria dos recursos era originária de campanhas,
coletas, doações individuais.
Nos dez anos seguintes, a
reorganização político-partidária, a consolidação do movimento
sindical, o restabelecimento da ordem democrática, a Constituição de
1988 foram alterando as relações e as fronteiras entre o Estado e a
sociedade organizada. Os limites de cada campo tornaram-se menos
demarcados, assim como as demandas foram tornando-se mais complexas e
fragmentadas. Iniciou-se uma crescente busca de especialização, de
autonomia e institucionalização de organizações sociais, associações,
ONGs que se foi refletindo no espectro das parcerias estabelecidas e no
padrão de financiamento de suas atividades. Muitas organizações
doadoras buscando ampliar seu campo de atuação, começaram a captar
recursos junto a governos e organismos multilaterais.
Durante a
década de 1990, nos principais países doadores de recursos financeiros
à Cooperação, o pensamento macroeconômico liberal foi tornando-se
hegemônico e impondo novos critérios de gestão desses recursos, com
ênfase especialmente na visibilidade das ações e em resultados
mensuráveis. Por conseqüência, uma nova política de cooperação para
governos e agências de financiamento começou a se perfilar no horizonte
com outra ordem de prioridades. A própria opinião pública de países
doadores, impulsionada por campanhas de mídia que contestavam a
eficiência dos resultados obtidos, começou a questionar o sentido da
ajuda. A multiplicação de ONGs na América Latina e na África e as
demandas que se foram abrindo na Europa Oriental e partes da Ásia,
também aumentaram o volume de solicitações e contribuíram para uma
maior seletividade e re-direcionamento dos apoios internacionais
oferecidos.
Assim foram surgindo no horizonte fortes indicadores
de mudanças. Muitas ONGs brasileiras foram sendo levadas a iniciar um
processo de redefinição institucional e reorganização de suas
estratégias de comunicação e visibilidade social. Progressivamente, as
relações com a sociedade, os governos, os agentes financiadores e os
beneficiários de suas ações foram sendo colocados sob nova ótica. O
movimento das ONGs que até então era bastante homogêneo – enquanto modo
de presença na sociedade e relações com governos – começou a cindir-se
e a comportar abordagens diferenciadas quanto à modalidade de
intervenção social e aos padrões de financiamento.
A
interlocução bilateral, as ações de colaboração pontual ou cooperações
institucionalizadas, iniciadas com o poder público municipal e
posteriormente estadual e federal, especialmente com relação à
formulação e a execução de políticas públicas setoriais, atingiu no
final da década seu ponto mais alto. Em decorrência, progressivamente
foram sendo abertos espaços para novas modalidades de parcerias ainda
pouco conhecidas pelas ONGs como alianças inter-institucionais e
terceirização de serviços públicos. Assim, a diversificação de fontes
de financiamento e de práticas sociais instalou um novo quadro de
identidade e funcionamento das organizações da sociedade civil.
Por
outro lado, além de maior proximidade alcançada com os centros de
decisão governamental, locais e internacionais, as ONGs passaram a
despertar também o interesse de empresas sensíveis a questões
sócio-ambientais ou que estivessem pressionadas por mercados
consumidores mais politizados e regulamentados. Entre as empresas no
Brasil que iniciaram esse movimento, destacavam-se as empresas
estatais, algumas multinacionais e as internacionalizadas porque já
estavam em contacto com regulações e padrões ecológicos e sociais de
concorrência mais exigentes.
Desta forma, também se iniciava um
processo de aproximação entre setores das ONGs e empresas que iria
evoluir para debates conceptuais e a entrada da empresa e de
ferramentas da gestão empresarial no universo de muitas ONGs.
Posteriormente, o surgimento de recursos financeiros corporativos para
projetos sociais, a criação ou o fortalecimento de fundações
empresariais para a ação social e mais recentemente a difusão da
cultura da responsabilidade social da empresa foi aumentando a
imbricação das relações entre empresas e organizações sociais, dando
início a uma prática de cooperação que é estranha à tradição
brasileira.
Evolução Recente
Essa
diversificação do universo das ONGs e de suas linhas de ação e o
estabelecimento de outras prioridades e formatos de novas parcerias
institucionais estarão cada vez mais presentes na segunda metade da
década passada e moldarão as relações e posições atuais. A este
panorama há que se acrescentar com relação ao funcionamento e
sustentação das ONGs, outros elementos que também contribuíram para as
mudanças no seu padrão de financiamento. As alterações da política
macroeconômica do país, que ocorreram entre 1993-95 e levaram à
estabilização econômica e ao fortalecimento da moeda nacional,
imputaram à maioria das organizações o fim dos benefícios da arbitragem
cambial advindos dos financiamentos da cooperação internacional e a
administração dos ganhos propiciados pela inflação.
Junte-se
também a esse fator mais conjuntural interno, a repercussão no médio
prazo de uma relativa retração na captação de recursos provenientes de
campanhas de organizações da Cooperação Internacional de origem
européia e o crescimento das demandas emergentes dos países do antigo
bloco soviético na Europa e na Ásia, às portas da União Européia, e o
empobrecimento endêmico da África Sub-saariana. Assim, apesar dos
compromissos históricos com o Brasil, a Cooperação européia será
crescentemente sensibilizada por outros atores sociais e as
perspectivas por esse caminho serão cada vez mais limitadas.
Por
outro lado, a intensa difusão do ambíguo conceito de Terceiro Setor,
muito mais amplo que o campo de ação social das ONGs anteriormente
demarcado, aliado a noções de responsabilidade social empresarial e
gestão ambiental, foram ampliando e modificando as inter-relações
sociais, políticas, de financiamento e institucionais entre os diversos
seguimentos da sociedade civil brasileira.
Pelo ângulo da
empresa, as novas barreiras protecionistas comerciais, as exigências
ambientais e sociais dos consumidores dos países mais avançados e a
ação crescente de ONGs no debate público foram “internacionalizando” os
negócios e a cultura empresarial brasileira. Por interesse, adaptação
ou visão, as empresas foram se introduzindo no ambiente da ação social
representado especialmente pela atuação das organizações sociais e
instituições filantrópicas ou para-governamentais.
Isso nos leva
a aprofundar dois aspectos, um político e outro financeiro, que
amplificaram sobremaneira esse movimento de confluência e
interferências recíprocas reunindo agência de cooperação, organizações
sociais, governos e empresas. O primeiro ressalta a reforma
liberalizante do Estado brasileiro na última década, ancorada na
primazia dos indicadores macroeconômicos, em direção a uma presença
institucional mais seletiva e menos direta no campo social, abrindo
espaços de financiamento e atuação para outros agentes, privados e não
governamentais, no que antes era do domínio das políticas públicas de
governos.
A associação da iniciativa privada ao financiamento de
programas e ações na área social, ambiental, cultural, educacional etc.
é percebida pela população como sinal de possibilidade efetiva de
realização, eficiência e resultados concretos. A mesma apreciação vem
se verificando com relação à execução de projetos sociais por ONGs e
instituições assistenciais do chamado Terceiro Setor, comparativamente
à ação governamental direta. Nesse sentido, é interessante registrar
como em tão pouco tempo tornou-se consensual em amplos setores da
sociedade brasileira e alcançou tão grande repercussão na mídia, a
atribuição ao setor privado de parte da responsabilidade de
financiamento ao desenvolvimento econômico, cultural e social de
qualquer iniciativa comunitária. Na mesma ordem, apesar de pouco
debatido pela sociedade e raramente visto como renúncia tributária e
re-distributiva, a multiplicação de programas de incentivos e isenção
fiscal nesse campo, também reforçou essa transferência.
Um
segundo aspecto refere-se a mudanças no padrão de financiamento das
ONGs ocorridas na segunda metade da década de noventa, já citadas
anteriormente. A maioria das agências internacionais de Cooperação,
após mais de três décadas de financiamento a projetos institucionais e
programas temáticos amplos, com causas apenas mitigadas e resultados
limitados para os indicadores econômicos em ascensão, foi sendo levada
a adotar novos critérios para a gestão de sua carteira de parceiros e
projetos, com reflexo sobre as modalidades de financiamento, seleção e
acompanhamento de ONGs e projetos.
Elas estão sendo levadas a
adotar em suas práticas tradicionais, critérios supostamente mais
objetivos, apoiados em um arsenal de novos instrumentos gerenciais como
sistema de planejamento, grupo beneficiário direto e indireto,
indicadores de resultados, gestão financeira, posicionamento
estratégico e até “plano de negócios” visando a sustentabilidade do
empreendimento social no médio prazo e o cumprimento de demandas dos
agentes financiadores. Ressalta-se que os critérios de per si não são
negativos, dependendo do conteúdo e uso que lhes atribuímos e da forma
como se processa seu assentamento na cultura das organizações sociais.
Caminhos e Perspectivas
O
panorama atual do financiamento às organizações e projetos sociais é
extremamente heterogêneo e não permite generalizações ou a elaboração
de uma tipologia bem definida. Convivem padrões, formatos e visões
políticas muito diferenciadas, que podem desenvolver estratégias
paralelas e até mesmo concorrentes. Até mesmo a existência de
fronteiras não governamentais claramente distinguidas em o que era
governo e o que era espaço privado já não é mais tão visível. As
interferências recíprocas são crescentes e se manifestam em diferentes
formas de co-financiamento, formação de alianças, concursos de
projetos, oferta de serviços e capacitação técnica em lugar de recursos
financeiros e parcerias.
Ao longo da última década, a
diversidade temática apoiada pelos financiadores locais ou
internacionais ampliou-se consideravelmente e embora conjunturalmente
alguns temas tenham merecido uma atenção especial em função das grandes
conferências sociais das Nações Unidas, todas as áreas de interesse
social estão contempladas, variando a modalidade e a intensidade do
apoio. No entanto, em sentido oposto, em geral, tem ocorrido uma
redução das áreas temáticas apoiadas por cada agente financiador, como
se gradualmente estivesse acontecendo entre as agências de cooperação
uma certa especialização ou divisão de campo de atuação.
Por
outro lado, a busca de uma maior profissionalização de financiadores e
financiados e a tentativa de racionalização de custos de gestão e
melhor monitoramento têm produzido uma mudança no perfil dos projetos
financiados. De uma forma crescente está ocorrendo uma concentração de
recursos em menor número de parceiros e muitas agências de cooperação
têm preferido ter menos parceiros, a reduzir o volume das doações a
cada um deles, da mesma forma, fala-se mais em focalização de recursos
e experiências exemplares que em universalização dos benefícios diretos
da cooperação.
Para suprir esse espaço de ação direta, que
unia movimentos sociais e grupos de base diretamente a agentes de
cooperação, novas formas de relações estão sendo construídas. Como
exemplos que vão se generalizando temos o apoio de agências à criação
de fundos de pequenos projetos e à realização de premiações que
conferem além de diplomas, doações para iniciativas específicas da
organização social concorrente. Em geral, são eventos com gestão e
monitoramento realizado por instituição local. Muitos financiadores têm
repassado recursos a grandes ONGs para a administração de fundos com
esses perfis. Dessa forma, elas se tornam um elo de ligação das
agências com pequenas organizações que atuam diretamente junto aos
grupos beneficiários, movimentos de base etc.
Outra tendência
observada nos últimos anos, refere-se à orientação adotada por muitas
agências e organismos de cooperação em valorizar em seus apoios
financeiros a promoção e implementação temática das grandes
conferências sociais de Nações Unidas. Essa estratégia responde a uma
análise de convergência de interesses da cooperação internacional, de
articulação da sociedade civil mundial e em certa medida, revela uma
certa globalização da atuação da chamada cooperação internacional, de
agentes e organizações sociais.
Atuando dessa forma, de
maneira complementar, as agências têm querido ao mesmo tempo fortalecer
a temática social no espaço das Nações Unidas e intensificar os
impactos a ser produzidos nos diferentes níveis da sociedade. Na última
década, temas relacionados a questões de meio ambiente, gênero,
direitos humanos, aids, discriminação racial etc mereceram
reorganização de programas e prioridades de apoio. Apesar de não haver
no horizonte conferência mundial “temática” programada, não seria
inesperado que novos temas, como combate à pobreza e segurança e
cidadania venham a integrar, em breve, esse panorama e tornar-se alvo
de todas as estratégias e diretrizes de agentes financiadores e
organizações sociais.
Eduardo Baptista, fevereiro de 2004. ebaptista@innovatio.com.br _____________________________________________________________ Referências bibliográficas:
Banco Mundial, Reformar a Cooperação Internacional. Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial, Washington, 2001.
Bailey, M, Landim, L, Agências Internacionais – Cadastro, Rio de Janeiro, ISER, 1995.
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